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Criando bons diálogos

O ofício da escrita requer de nós a sagacidade de conseguir se colocar e se ausentar do texto nos momentos necessários, afinal, mesmo que a obra saia de nós, precisamos emprestar nossa voz ao narrador e aos personagens; e neste ponto muitos de nós encontra a dificuldade em criar bons diálogos. Uma coisa é compor um narrador onisciente ou decidir vestir a primeira pessoa e esboçar um livro com um narrador-personagem, visto que estamos falando de um único elemento narrativo, outra coisa é compreender que para além de narradores, nós precisamos construir personagens diferentes, ocupando o enredo com suas variadas vozes. E com relação a isso, amigo escritor, tenho autonomia para dizer que muitos não possuem as rédeas da situação.

Para quem não me conhece, sou Jadna Alana, prazer, e além de escritora também atuo na área editorial e sou pesquisadora; posições estas nas quais preciso sempre me posicionar através da escrita. Por isso, minha coluna, adianto, terá um viés autobiográfico e intimista ao mesmo tempo que falarei também de coisas sérias, como minha pesquisa, estudos e escrita criativa. Aprendi, um pouco tardiamente, que podemos ser muitos em um, e se diminuir para caber em um espectro de quem nós somos pode ser claustrofóbico.

Minha obsessão pela criação de diálogos nasceu cedo, nos primeiros anos de carreira. Havia em mim a necessidade de compreender como aperfeiçoar esse ponto quando notava uma grande dificuldade: os personagens falavam da mesma maneira, como uma extensão do narrador, e para piorar não existia naquelas falas nenhuma informação que de fato fosse acrescentar alguma coisa para a obra. Rascunhar um “bom dia, como vai?”, “estou bem e você?” é simples, no entanto utilizar desse meio para construir personagens, agregar metáforas e informações importantes para o enredo me parece um feito de poucos.

Aqui entra, então, a minha jornada não só como escritora, mas também como editora de textos. Durante três anos como leitora crítica e preparadora textual encontrei obras boas e outras carentes de muito aperfeiçoamento. Por isso tenho sido certeira na minha ênfase de que o assunto “diálogo” precisa ser trabalhado com mais eficácia por muitos. Três anos de trabalho editorial e poucos conseguiram me surpreender com a sagacidade na construção destes. Como ocorreu comigo também, na maioria das vezes diálogos longos demais, explicativos demais, óbvios demais, sem acrescentar nada para a narrativa ou construção de personagens, cheios de frases de efeito preenchidas de lugares-comuns, sem ritmo ou qualquer marca de coloquialidade. Me diga, qual a coerência de uma obra jovem, ambientada em nossos tempos, em que todos os personagens falam “estou indo para uma festa” em vez de “tô indo pra uma festa?”. São pequenas coisas, estas que passam despercebidas por nós, que fazem toda a diferença na composição de bons diálogos.

Nunca me esqueço de um vídeo que assisti, e que infelizmente não me recordo qual seja, em que um cineasta dizia que bons diálogos deveriam funcionar como uma dança: precisava ter ritmo, embalar o leitor em seu suingue, acontecer com naturalidade, mas não necessariamente significando pouca complexidade. A partir desse dia, passei a tentar compreender isso, ouvindo atentamente as pessoas à minha volta. E junto com o ritmo, o vai e vem das falas, compreendi também que os famosos dicendi (A expressão dicendi vem do latim e significa “dizer”. É por isso que aqueles verbos empregados com esse sentido também são conhecidos como verbos de elocução/de declaração, ou seja, verbos que apresentam a maneira pela qual alguém se expressa.) deveriam ser usados com moderação. Certo, sem exemplos eu sei que fica difícil de compreender.

Bons diálogos são como uma dança

Não uso dos verbos dicendi:

 

— O que que tu quer? — ele disse assim, na lata, sem esperar ela compreender o acontecido.

 — Eu tava indo comprar pão.

 — Com que dinheiro?

 — Uns trocados que arrumei no centro.

 — Mentira. A padaria de seu Jericó é pro outro lado.

 — Tava querendo ir por um caminho diferente hoje.

 — Mentira.

 — Tô falando!

(Trecho do conto “A verdade é de plástico, de Jadna Alana)

Agora o mesmo trecho usando dicendi em todas as falas:

— O que que tu quer? — ele disse assim, na lata, sem esperar ela compreender o acontecido.

 — Eu tava indo comprar pão — respondeu, fazendo cara de birra.

 — Com que dinheiro? — retrucou no mesmo tom.

 — Uns trocados que arrumei no centro — mentiu, e ele percebeu.

 — Mentira. A padaria de seu Jericó é pro outro lado.

 — Tava querendo ir por um caminho diferente hoje — contornou.

 — Mentira.

 — Tô falando! — insistiu.

 

Aqui percebe-se uma grande alteração no ritmo, já que as falas deixam de construir um movimento de “vai e vem”, de um personagem para outro, e há pausas demoradas em descrições que não agregam muita coisa. Por exemplo, quando a personagem diz “tava querendo ir por um caminho diferente hoje”, o leitor já interpreta automaticamente que ela está “contornando” a situação, sem a necessidade de inserir um verbo dicendi “contornou”, como mostrado no trecho acima. Da mesma forma acontece com o “insistiu” da última fala, que claramente esboça a insistência da personagem. Aqui não encontramos um problema apenas na construção de diálogos, mas também um certo achismo do autor em deduzir que o leitor não vai conseguir compreender a fala sozinho, entrando no conhecido “mostrar x contar”, que podemos aprofundar em outra situação.

Agora você concorda comigo que a construção de diálogos pode ser mais complexa do que você imaginava? Acredite, eu não falei nem metade do que vamos explorar no aulão de “Como construir bons diálogos”, que acontecerá dia 04 de julho às 19:00. Será um momento especial em que falarei um pouco mais dos meus métodos, a maneira como crio diálogos e técnicas para tornar esse processo mais fácil. O aulão custará apenas R$100,00, um valor muito simbólico perto do conhecimento que será transmitido.

Espero vocês lá.

Palavras-chaves:
Bons diálogos, como criar diálogos, escrita, escrita criativa, Jadna Alana, regionalismo fantástico, autor
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