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Essa semana recebi uma inquietação de uma cliente em relação ao livro dela. Estava aflita por causa da nova história na qual trabalhava: achava que ela pudesse ter muitos gatilhos emocionais para pessoas suicidas e que isso fosse deixar alguns leitores aflitos, relutantes em finalizar o livro. O assunto gerou uma série de discussões saudáveis sobre o trabalho como escritor, não só com ela como com meus outros clientes. E achei o assunto interessante o suficiente para vir falar por aqui também.

O que é ser um escritor?

Um escritor é um eterno catalogador do mundo em volta dele. Mais do que isso: ele enxerga, compreende e usa o que vê ao redor como fórmula para escrever uma história. Normalmente, o tema de um livro surge com uma inquietação humana. De olhar pessoas passando por determinadas situações e achar que elas dão uma boa história. Às vezes, até o próprio autor passou por coisas semelhantes e utiliza a escrita como um modo legal de externalizar isso e se livrar de alguns demônios. De vez em quando, a tática funciona. Minha terapeuta já indicou a escrita como tratamento).

Se o livro tiver temas capazes de provocar gatilhos mentais, como depressão ou estupro, é certo que ele vai atingir algumas pessoas mais fortemente do que outras. Principalmente se elas passaram por abusos similares em suas vidas e veem isso como um problema ainda presente. Ou seja, não trataram dele como deveria.

Usando minha própria vida como exemplo (gosto de fazer isso com vocês, para entenderem que isso aqui é vida real): tenho sérios problemas em ler livros com crianças que morrem. Alguns anos atrás, li um no qual a mãe, protagonista da história, teve uma filha falecida ainda bebê, por conta de problemas cardíacos. Isso me atingiu com força, porque minha primeira filha se foi do mesmo modo. Então, é lógico que foi um livro capaz de me ferir muito mais do que machucaria outras pessoas sem histórias semelhantes perto de si. E isso é normal. Todo ser humano tem grandes manchas sentimentais em suas vidas, e algumas feridas jamais cicatrizam.

Às vezes, só de ler sobre traição a pessoa entra em uma paranoia depressiva, porque passou por um evento traumático envolvendo o assunto. Já esse tipo de questão não me atingiria em nada. Não da forma que afetou essa pessoa. Entenderam aonde quero chegar? Alguém sempre vai se sentir pessoalmente ofendido por uma questão tratada em algum livro, e você, como escritor, não pode se preocupar tanto com isso. Ou jamais irá escrever.

Colocando-me no papel de leitora, evito ao máximo livros sobre crianças doentes ou pacientes com doenças terminais. Em alguns casos, acontece de isso não estar na sinopse ou de eu não saber nada sobre a história e ser pega de surpresa. Nesse caso, desisto de ler sem peso na consciência. Sei até onde posso ir com meu emocional e paro quando sinto que não vai me fazer bem. Mas jamais puniria o autor por esse motivo, como minha cliente estava se punindo por medo de atingir as pessoas. Porque a história estava lá, precisava ser contada, e o escritor aproveitou os sussurros dela ao seu ouvido. Aquilo que me fez mal pode fazer bem a outras pessoas. Preciso respeitar isso e seguir adiante.

Para se sentir tranquilo, você pode alertar no começo do livro sobre possíveis gatilhos para depressivos ou pessoas que sofreram abusos domésticos, por exemplo. Mas apenas se isso não for comprometer a surpresa do leitor com a história. Se isso não for dar spoilers sobre ela. Do contrário, não coloque. Em vez disso, tente dar uma solução para quem passa por traumas semelhantes. Números de Centros de Apoio é um bom exemplo. Apresentar a problemática e uma forma de lidar com ela é o melhor modo de ajudar o leitor que viveu problemas desse tipo.

Lembrem-se: nosso papel como escritor é contar uma história. Observar o entorno e registrar isso para outras pessoas terem acesso à vida dos personagens, que querem ser lidos. Como falei, mesmo se isso prejudicar alguém por um momento, pode ajudar outros indivíduos. Portanto, não se limite como autor por conta dos gatilhos emocionais. Tente não se preocupar com isso. Existe gatilho mais forte do que os jornais da TV? Acho que não, e ainda assim as pessoas insistem em vê-los. E aqueles que não gostam, simplesmente mudam o canal. O leitor precisa encarar a leitura difícil emocionalmente da mesma forma. Se não der para digerir, mude. A TV não vai deixar de noticiar porque não te fez bem. Um autor também não pode deixar de contar uma história pelo mesmo motivo.

Palavras-chaves
Gatilhos emocionais, escritor, alerta, sinopse, informação, não impedir de escrever

Redes sociais: Carol Teles

Página oficial Izyncor: Carol Teles

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